
terça-feira, 21 de Julho de 2009
Em jeito de despedida

quinta-feira, 4 de Junho de 2009
O último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Manuel Bandeira
segunda-feira, 25 de Maio de 2009
O Girassol
quinta-feira, 21 de Maio de 2009
O embondeiro que sonhava pássaros

Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida. Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho. O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro.
* muska: nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.
Mia Couto, Cada Homem é Uma Raça
terça-feira, 19 de Maio de 2009
A gente se acostuma…

Marina Colassanti
quinta-feira, 14 de Maio de 2009
Fábula revisitada

Hipólito Clemente
segunda-feira, 11 de Maio de 2009
Carta dum contratado

Eu queria escrever-te uma carta
Eu queria escrever-te uma carta
Eu queria escrever-te uma carta
Eu queria escrever-te uma carta
Eu queria escrever-te uma carta...
Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
António Jacinto
quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Neve preta?

Falar de neve em Junho mostra uma lamentável falta de sentido de oportunidade. Mas, tal como debaixo dos pés se levantam os trabalhos, também o acaso dos encontros pode inverter a ordem das estações e trazer o inverno para o pino do verão, e fazer passar por nós um terrível frio que nenhum agasalho será capaz de vencer. Porque, não me cansarei nunca de o dizer, é preciso muito cuidado com as crianças (...).
José Saramago, Deste mundo e do outro
segunda-feira, 4 de Maio de 2009
Hugo Pratt e Sandokan
(clique na imagem para aumentar)
Sandokan, o Tigre de Mompracem, não me seduziu nas descrições de Emílio Salgari nem na figura do actor Kabir Bedi. Mas quando li esta notícia no Público de sábado passado fiquei com a certeza de que vou mudar de opinião. Já estou a contar o tempo que falta para ter o livro nas mãos!
quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Medo da eternidade

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
Clarice Lispector
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Posso escrever os versos...
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe."
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o vento cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.
A mesma noite faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive em meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Embora seja esta a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)
quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Qual é o livro que andam a ler?
quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Dia da Terra
Sabemos hoje que a Terra é o nosso lar, a nossa casa comum, a nossa pátria. É o único habitat aprazível, com os seus rios, as suas montanhas, as suas flores, os seus animais, a diversidade das suas espécies, a diversidade das nossas culturas, a diversidade dos humanos. Estamos em nossa casa.
Pertencemos no entanto, a um tempo (...) em que, como nunca até hoje, as ameaças convergem sobre o nosso planeta. O mais trágico, ou cómico, é que todas estas novas ameaças (desastres ecológicos, aniquilamento nuclear, manipulações tecnocientíficas, etc.) provêm dos próprios desenvolvimentos da nossa civilização. O problema de dominar o planeta já não tem o mínimo sentido. A Terra não nos pertence, nós é que lhe pertencemos. Trata-se, actualmente, de controlar o desenvolvimento descontrolado da nossa era planetária. A Terra-Pátria está em perigo. Estamos em perigo, e o inimigo, aprendemo-lo finalmente hoje, não é outro senão nós próprios.
Edgar Morin, Os problemas do fim do século, 1990
sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Definição

“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto mas, se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada."
Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados
terça-feira, 14 de Abril de 2009
Mankind is no Island
O Quarto de Fadas fez ontem um ano, e eu não teria dado por isso se não fosse o Carlos, que alertou o blogobairro para isso com um post da maior simpatia possível. Para ele e para os que me enviaram mensagens de parabéns, os meus agradecimentos.
terça-feira, 7 de Abril de 2009
Cronobiograma feminino
Dos 5 aos 10 anos - Sabe que é diferente dos rapazes, mas não percebe porquê.
Dos 10 aos 25 anos - Sabe exactamente porque é que é diferente, e tira proveito disso.
Dos 25 aos 30 anos - Nesta fase formam-se 5 grupos distintos:
G1: As que casaram por dinheiro.
G2: As que casaram por amor.
G3: As que não casaram.
G4: As que simplesmente casaram.
G5: As inteligentes.
G1: Descobrem que o dinheiro não é tudo na vida e sentem falta de uma paixão.
G2: Descobrem que a paixão não é tudo na vida e sentem falta do dinheiro.
G3: Descobrem que o dinheiro e a paixão não fazem falta, o que interessa mesmo é um homem.
G5: Descobrem que ter inteligência não é tudo na vida.
Dos 30 aos 35 anos - Sabe exactamente onde é que errou e pinta o cabelo de loiro. Vai para o ginásio.
Dos 35 aos 40 anos - Procura ajuda espiritual.
Dos 40 aos 45 anos - Abandona a ajuda espiritual e procura ajuda médica, com psicólogos e cirurgiões plásticos.
Dos 45 aos 50 anos - Graças aos cirurgiões o rabo e barriga voltaram ao normal, o peito ficou melhor do que era e apaixona-se pelo psicólogo.
Depois dos 50 anos - FINALMENTE DESCOBRE-SE, ACEITA-SE E COMEÇA A VIVER!!!
(Mandado por e-mail por uma mulher bonita, inteligente e com mais de 50 anos)
domingo, 29 de Março de 2009
Belo belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milénios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
Manuel Bandeira
terça-feira, 24 de Março de 2009
Parábola do professor
Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os dizendo:
Em verdade vos digo, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...
Pedro interrompeu: Temos que aprender isso de cor?
Um dos fariseus cretinos, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:
Onde está a tua planificação? Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didáctica mediatizada? E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional? Quais são as tuas expectativas de sucesso? Tendes para a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão? Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios? Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem? Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais? Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes?
Caifás, o pior de todos, disse a Jesus:
... E Jesus pediu a reforma antecipada aos trinta e três anos...
terça-feira, 17 de Março de 2009
A árvore dos desejos

Era uma vez um homem que enquanto viajava entrou acidentalmente no paraíso. Neste paraíso, existiam árvores dos desejos. Bastava sentarmo-nos debaixo delas, pedirmos um desejo e imediatamente o desejo tornava-se realidade - não havia intervalo entre o desejo e sua realização.
O homem estava cansado e adormeceu à sombra da árvore-dos-desejos. Quando despertou, estava com muita fome, e pensou:
- Estou com tanta fome, quem me dera encontrar qualquer coisa para comer.
E imediatamente apareceu comida vinda do nada, simplesmente uma refeição deliciosa flutuando no ar.
Ele estava tão faminto que não quis saber de onde é que a comida viera (quando se está com fome, não se é filósofo!). Começou a comer imediatamente, a comida estava deliciosa... Depois, tendo saciado a fome o homem olhou à sua volta...
- Se ao menos pudesse ter algo para beber...
E como não há proibições no paraíso, imediatamente apareceu um excelente vinho. Bebendo o vinho descontraidamente aproveitando a brisa fresca do paraíso, sob a sombra da árvore, começou a pensar:
- O que está a acontecer? O que se passa? Estarei a sonhar ou existem espíritos à minha volta ?...
E os espíritos apareceram. E eram ferozes, horríveis, hediondos.
O homem começou a tremer e mais um pensamento surgiu na sua mente:
- Agora vou ser assassinado, com certeza!
E foi assassinado.
Autor desconhecido
terça-feira, 10 de Março de 2009
Blueberry Girl
Damas da luz e damas das trevas, damas de tudo o mais,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Primeiro que tudo, senhoras,
tende a bondade de poupá-la a escorregadelas e tropeções aos dezasseis,
permiti que se mantenha desperta e ajuizada, livre de pesadelos aos três,
de maridos que lhe entristeçam o olhar aos trinta,
de dias tristes aos catorze,
de falsas amigas aos quinze.
Permiti que tenha dias de coragem e de verdade.
Permiti que vá a lugares a que nunca nos permitiram que fôssemos
e que tenha sempre alegria na sua juventude.
Damas da graça e damas da mercê, damas de poder misericordioso,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Concedei-lhe a vossa pureza de visão.
As palavras podem ser inquietantes,
as pessoas podem ser complexas
e os meios pouco claros.
Concedei-lhe a sabedoria de escolher o caminho direito,
livre de maldade e medo,
permiti que conte histórias e dance à chuva,
que dê cambalhotas, role e corra,
que as suas alegrias sejam tão altas como as suas tristezas profundas.
Permiti que cresça como uma erva ao sol.
Damas do paradoxo, damas do equilíbrio, damas das sombras que caem,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Ajudai-a a ajudar-se a si própria,
ajudai-a a levantar-se,
ajudai-a a perder-se e a encontrar-se,
ensinai-a que temos o tamanho dos nossos sonhos,
ensinai-a que a fortuna é cega,
que a verdade é uma coisa que ela terá de encontrar por si própria,
preciosa e rara como uma pérola.
Concedei todos estes dons e um pouco mais ainda a uma blueberry girl.
Neil Gaiman
(tradução livre)
quarta-feira, 4 de Março de 2009
Outra Vida
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
De elefantes, baleias, cais e canções
Na preguiça do panda, na destreza do lince
Vou abrir a Pandora onde Deus não existe
Entre tudo e nada, saber quem sou
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
De golfinhos e águias, do silêncio das águas
Regressado aos sentidos e à razão dos bichos
Dos espaços perdidos, na asa de condor
No fundo do mar, saber quem sou
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
Porta-voz de ondas, tradutor de ilusões
Ser menos ainda que um pequeno carreiro
Descobrir o mistério do Universo inteiro
Emprestar a vida, descobrir quem sou
Letra e música de João Afonso Lima
terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009
sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009
Foi para ti...
quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
Mudar uma lâmpada...

Depende do tipo de pessoa:
Tias?
Psicólogos?
Loiras?
Consultores?
Bêbados?
Informáticos?
Activistas gays?
Cantores Românticos?
Machões?
Americanos?
Mulher?
quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
Citação

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento















